A abertura do capítulo: cinco talentos admiráveis, um a um, avaliados sem o amor.
Uma palavra que confunde há séculos
Matthew Henry abre 1 Coríntios 13 removendo um mal-entendido embutido na palavra
inglesa. O que Paulo louva não é aquilo que se entende por caridade no uso comum da
palavra, que a maioria das pessoas entende como esmola
, e sim o amor no seu
sentido mais pleno e mais extenso, o verdadeiro amor a Deus e ao próximo
— uma
disposição benevolente da mente para com os nossos irmãos cristãos
. O português tem
o mesmo problema da palavra inglesa, e a linhagem Almeida guarda a redação antiga; é por
isso que as duas primeiras entradas abaixo trazem o texto clássico, e a última traz o
contraste contemporâneo.
A aritmética do zero
O que vem a seguir é uma aritmética: tudo o que impressiona, multiplicado por zero. A
eloquência sem amor é apenas ruído vazio, som meramente desarmonioso e inútil, que
não traria proveito nem deleite
, porque é o coração caridoso, e não a língua
fácil, que é aceitável a Deus
. O saber não se sai melhor: uma cabeça clara e
profunda nada significa, sem um coração benevolente e caridoso
. A fé que move
montanhas também perde, pois um grama de caridade vale, na conta de Deus, muito mais
do que toda a fé desse tipo no mundo
. Nem a generosidade salva: pode haver uma
mão aberta e pródiga onde não há um coração generoso e caridoso
.
O retrato em comportamentos — a parte lida nos casamentos, e a mais difícil de cumprir numa terça-feira comum.
Um retrato comportamental, não lírico
O retrato que vem depois é comportamental, não lírico: o amor pode suportar o mal,
a injúria e a provocação, sem se encher de ressentimento, indignação ou vingança
, e
caça ocasiões de ajudar — ele busca ser útil; e não apenas agarra as oportunidades de
fazer o bem, mas as procura
. Na prática, Henry lê as propriedades como hábitos: a
bondade é ativa e disponível — a lei da bondade está nos seus lábios; o seu coração é
largo e a sua mão é aberta
— e a paciência é o que acontece com um temperamento já
ocupado por outra coisa, pois a ira não consegue morar no peito onde o amor
reina
.
Isso significa aceitar tudo e não julgar nada?
Não, e Henry o diz diretamente: a caridade de modo algum destrói a prudência
.
A fórmula dele é que a sabedoria pode habitar com o amor, e a caridade pode ser
cautelosa
. O amor de 1 Coríntios 13 pende para a leitura generosa da pessoa e se
recusa a supor o pior sem provas — mas tem permissão para ver, pesar e manter o juízo. A
ingenuidade não está entre as propriedades da lista de Paulo.
O item que não expira
O pódio final do capítulo, na redação clássica que a memória de muitos leitores guarda.
A mesma sentença no vocabulário contemporâneo — o contraste que desfaz a confusão entre as duas palavras.
É o único item da lista final de Paulo que nunca expira: quando a fé e a esperança
tiverem chegado ao fim, a verdadeira caridade arderá para sempre com a chama mais
brilhante
. Por que essa ordem no pódio? Por causa do que acontece com os outros
dois. A razão de Henry é estrutural: o amor é o fim do qual os outros dois são apenas
meios
. A fé e a esperança são instrumentos para uma situação — o que ainda não se
vê, o que ainda não se tem — e essa situação acaba, pois não há lugar para crer e
esperar quando vemos e desfrutamos
. O amor é o único dos três que tem o mesmo
trabalho a fazer depois da chegada e antes dela.
O capítulo tem treze versículos; esta página anotou cinco deles.
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